Bruno
Cristandade franco-lusitana
Parece-me que são França e Portugal as filhas diletas da cristandade. Aquela, dotada de uma cristandade centrípeta, como que com um olho em si mesma ante a necessidade de lapidar-se, fez-se berço do primeiro rei cristão do Ocidente; das opulentas, alquímicas e gloriosas catedrais góticas; das universidades e suas proveitosas disputationes. Através daqueles reis belicosos e pujantes, como os merovíngios, carolíngios e capetianos, tão exitosos em seus prélios e, em casos como o de São Luís IX, elevados à honra dos altares, ela forneceu os alicerces necessários para a futura dilatação da fé cristã.
Já este, dotado de uma cristandade centrífuga, muito possivelmente graças ao que Mendes Corrêa chama de oceanicidade (disposição natural à navegação e às amplas viagens pela distância — elemento constituinte do próprio desejo de independência do condado de Portucale do Reino de Leão), não tarda em fazer jus aos frutos que recebeu da França: é sob a égide dos duques de Borgonha e do patrocínio dos monges franceses, especialmente os de Cluny, que os condes portucalenses estreitam a sua relação com a Igreja e consequentemente realizam a cristalização a fé de outrora, que consiste justamente na externalização e expansão da mesma cristandade áurea medieval. Creio ser a maior prova disso o fato de a França ter sido o coração da Ordem dos Cavaleiros Templários, lá terem sofrido perseguição e de lá terem fugido para Portugal, subsistindo somente neste com o nome de Ordem de Cristo, ordem cuja cruz os portugueses carregaram nas suas embarcações em toda a sua epopeia marítima e que esteve presente na bandeira do Império do Brasil e é até os dias de hoje símbolo magno de Portugal.